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Top Spin - O sonho de José Carlos Morais não pode acabar

Segunda, 06 de julho 2020 às 13:08:04 AMT

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Tênis Profissional

Por Gustavo Loio - Meu primeiro contato com o José Carlos Morais foi no dia 24 de fevereiro de 2009. Na ocasião, ele me mandou um e-mail pedindo a divulgação, no meu blog no site do Jornal O Globo, de uma crônica de sua autoria cujo título era ‘O sonho não pode acabar’.



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No texto, Morais criticava o descaso do então presidente da CBT, Jorge Lacerda, com o tênis para cadeirantes.
Publiquei na íntegra.
O trecho final da crônica dizia:
‘Nossa história ainda é muito curta para continuarmos atrelados a uma estrutura pouco transparente. A herança de más administrações não nos pertence. As favas com a integração. Precisamos encontrar uma saída para continuar o nosso sonho’.
Médico, professor universitário e precursor, junto com Celso Lima, do tênis para cadeirantes no Brasil, Morais, infelizmente nos deixou no dia 4 de julho, vítima de um infarto, aos 73 anos. Desde que fora baleado na Avenida Vieira Souto, em Ipanema,no Rio de Janeiro, em 1972, esse gaúcho de Pelotas ficou paraplégico. E, 13 anos depois, trouxe o tênis para cadeirantes ao Brasil. De lá pra cá, sempre com um sorriso no rosto, o pai de Joana e Rafael e marido de Martha lutou mais do que ninguém pela modalidade no país.
Primeiro brasileiro a disputar a Paralimpíada, em Atlanta, em 1996, Morais representou a nossa bandeira em diversas outras competições, como nove Mundiais e outras duas Paralimpíadas, e não mediu esforços para atrair mais praticantes. Promoveu torneios e, em 2010, lançou o projeto social ‘Cadeiras na Quadra’, em Niterói.

Na Semana Guga Kuerten, em Florianópolis, de 2012, Morais protagonizou um dos momentos mais emocionantes dos meus 20 anos de jornalismo. Eu estava trabalhando para a assessoria de imprensa do evento e contei um pouco da história do Zé ao tricampeão de Roland Garros. Na premiação do torneio para cadeirantes, Guga fez uma linda, emocionante e merecida homenagem ao precursor da modalidade.
- Vocês são grandes exemplos para todos nós. O tênis em cadeira de rodas precisa de mais incentivo. Por isso fiz questão de escrever na camisa do José Carlos: ‘Parabéns pela coragem, pela iniciativa’, por enfrentar esse desafio de vir para a quadra. A gente sabe que, principalmente no Brasil, é muito complicado. O que vocês fazem dentro da quadra é excepcional. Dias como esses são inesquecíveis – disse, na ocasião, o ex-número 1 do mundo.
- Olha, José Carlos, separa lá na sua estante um espaço, porque vou mandar fazer um troféu, daqueles bem grandes, para você deixar guardado – continuou Guga.
O precursor da modalidade no Brasil não segurou as lágrimas e foi abraçado pelo tricampeão de Roland Garros:
- Só tenho a agradecer ao Guga não só pela importância que ele tem para todos nós, mas, também, por nos ver como atleta e não paratleta. E por essa integração com os tenistas juvenis. Isso que o Guga faz por nós é um sonho - agradeceu Morais.
O tricampeão de Roland Garros, que voltou a homenagear o Zé na SGK de 2013, lamentou, nas redes sociais, o adeus:
- Desbravador, pioneiro, visionário, encantador, alma divina que seguirá nos iluminando e inspirando sempre em prol da inclusão e acessibilidade!!! Obrigado por todo seu carinho e amor pela vida!!!
Tive o privilégio de reencontrar o precursor da modalidade no país em outras ocasiões, como na Olimpíada do Rio, em 2016, e em algumas edições do Rio Open. Sempre com um sorriso no rosto, Morais me dava seu parecer sobre a acessibilidade nesses eventos.
Em 2017, ele me convidou para o lançamento de sua autobiografia ‘Roda Vida’. Eu estava de plantão na ocasião e não
pude comparecer. Lamento demais não ter ido.
Morais adorava escrever. E, no site da Revista Nittênis, no último dia 7 de maio, ele escreveu um texto sobre o ‘Tênis em tempos de Covid’. Abaixo, o trecho final: ‘Ao entrar na quadra respeitaremos a distância de dois metros. O
único contato será através da bola e para isso começaremos a jogar com bolas novas e não as pegaremos com as mãos.
Usaremos os pés e a raquete para mandá-las para o sacador. Quem terminar de sacar, higienizará as bolas com álcool a 70 graus e passará para o próximo a sacar e assim sucessivamente. Entraremos na quadra mantendo a distância de 2 metros e não trocaremos de lado nos games ímpares. Evitaremos levar a mão ao rosto e não emprestaremos a raquete. Os próximos jogadores que entrarem na quadra só o farão quando ela já estiver desocupada. Limparemos todo o equipamento após o jogo. Se você for cadeirante preocupe-se em higienizar todas as rodas, não esqueça do anti-tip... Fique em casa e programe mentalmente aquele drop-shot impecável e o voleio preciso. Ah, esses golpes pós-pandemia serão inesquecíveis. Cuidem-se’. Via whatsapp, fiz questão de parabenizar Morais pelo texto. E, 14
dias depois, nos falamos pela última vez: acompanhei sua live com o técnico Michel Bandeira no Instagram. Depois, voltei a parabenizá-lo no ‘zap’. Como era bom ouvir suas histórias e ensinamentos. Um baita aprendizado.
Muito obrigado por tudo, meu amigo, e muita força à sua família.
O seu sonho não vai acabar.

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