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Thiago Alves conta o drama da contusão e sua virada em entrevista a Tênis News

Domingo, 30 de outubro 2005 às 16:00:00 AMT

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Thiago Alves IV
Entrevista feita por Fabrizio Gallas, editor-chefe Tênis News

Considerado no fim da década de 90 uma das maiores promessas juvenis do tênis brasileiro, o focado e determinado Thiago Alves, 23 anos (nascido em 22/05/1982), contou, em entrevista exclusiva a Tenis News direto de Santhiago no Chile, tudo sobre sua carreira.


Ele falou sobre a época de glória no juvenil, assinalou o drama que viveu ao ficar parado por um ano contundido e acentuou sua grande virada e ascensão atual no ranking profissional.

Nascido em São José do Rio Preto, Thiago Hernandes Alves, atual número 142 do mundo (ranking do dia 24/10/2005) , se mudou para Guarulhos onde treina, desde julho de 2002, no Guarulhos Tênis Clube (GTC). Sua equipe é formada por Giovanne Ballarin, técnico, e Rodrigo Gomes, preparador físico . Por ter sido um juvenil de grande destaque, patrocínio nunca foi problema. Hoje, Thiago tem apoio da NEC do Brasil, material esportivo fornecido pela Diadora e utiliza raquetes da Fischer.

Tenis News - Como foi seu início no tênis ? Teve alguma influência da família ?
Thiago Alves - Uma tia minha começou a jogar e falou a respeito com meu pai. Meu pai começou a ir ao clube jogar e eu ia com ele, isso com 5 anos de idade no Palestra Esporte Clube em São José do Rio Preto.

TN - Qual foi sua primeira conquista no juvenil ?
TA - Não me lembro. Jogo torneios desde meus 6 anos, mas a primeira conquista significativa foi o Banana Bowl de 16 anos em 1998. — o Banana Bowl é disputado em São Paulo e figura como um dos principais torneios juvenis do mundo junto do Orange Bowl e os Grand Slams.

TN - Qual era seu maior adversário na época de juvenil ?
TA - O Bruno Soares, José Carlos Pinto Júnior e até os 15 anos o Gustavo Andrade.

TN - Como era seu relacionamento com eles ? Rivalidade, amizade ?
TA - Normal, a rivalidade pode ser positiva dependendo da maneira que você encara ela.

TN - E quando foi que você descobriu que poderia virar profissional ?
TA - Desde moleque todos falavam que eu tinha potencial, mas resolvi seguir carreira profissional com 14 anos.

TN - Você se inspirava em algum profissional, ídolo na época ?
TA - Não tenho muito disso.

TN - O que ficou de aprendizado a você nessa época de juvenil ? Algum fato marcante ?
TA - Não. Acho que o brasileiro pensa demais nessa mudança de juvenil pra profissional, deveriam levar mais na normalidade.

TN - Você foi um jogador de bastante destaque durante o juvenil, como esse processo de adaptação ao profissional ?
TA - Essa adaptação é uma coisa que todo mundo acha complicado, mas comigo não foi muito não. É lógico que os jogos passam a ser mais difíceis, mas em relação a estrutura eu sempre tive bastante apoio. Ainda quando juvenil era patrocinado pelo Tennis Place onde o dono (Jose Arana), sempre me deu a estrutura necessária, fazia meu calendário como o meu treinador da época, Edvaldo Oliveira, queria.

TN - Mas a situação de hoje mostra muitos tenistas que não tiveram o apoio que você teve...
TA - Então, talvez por isso eu tenha esse pensamento. Falo por mim, é difícil a garotada sair do juvenil, mas se você é um juvenil que se destaca bastante, fica mais fácil ter apoio, agora se o cara não tem nível, é difícil mesmo.

TN - E você tem acompanhado o tênis juvenil do Brasil de hoje ?
TA - Não muito, aliás quase nada. Têm alguns moleques que sei quem são, mas torneios não acompanho não. Tem um juvenil de bastante potencial que treina comigo, o Thomaz Belucci. O diferencial dele é no físico. Ele é muito forte tem 1,88m, muita envergadura e é canhoto. A bola dele anda muito, já tem peso de bola de alto nível. E mentalmente ele se acredita bastante.

TN - Hoje se fala bastante no potencial em garotos como José Pereira Jr. e João Souza como possíveis promessas do tênis nacional. Conhece algum deles?
TA - João Souza é o “Feijão”. Esse eu conheço, mas não vi ele jogar. O José não sei quem é, mas pra mim o maior potencial mesmo é o Belucci, tem apenas 17 anos.

TN - Como foi sua primeira conquista no profissional ?
TA - Foi no Rio e Janeiro num Future no Tijuca Tênis Clube. Passei o qualy e fui campeão em 2001. Foi bem legal, era meu primeiro ano no profissional, ainda era abril. Depois dessa conquista passei a acreditar mais no meu potencial.

TN - E como e seu treinamento no GTC (Guarulhos Tênis Clube) ? Quantas horas de quadra, físico ?
TA - Por causa da minha cirurgia não treino muito mais quadra, no máximo 2 horas diárias. Mas fisicamente trabalho bastante, têm exercicios especificos por causa da cirurgia.

Thiago Alves ficou parado durante um ano, entre agosto de 2003 e agosto de 2004. Ele teve uma ruptura do tendão do bíceps, que atingiu seu ombro, quando sacava durante uma partida do Future em Guarulhos contra o paulista Julio Silva. Thiago era o número 413 do mundo e voltou a jogar como número 1433.

TN - A cirurgia foi um momento muito complicado para você...Fale um pouco sobre essa fase em sua vida.
TA - Foi complicado. Mas acho que para minha vida foi boa porque hoje sei que não tenho mais tempo a perder. Durante a recuperação vi o quanto o tênis era importante pra minha vida.

TN - Você ficou durante um ano parado despencou de 400 para 1400 do mundo. No momento em que viu que deveria ficar tanto tempo parado, o que você pensou ? Cogitou em parar de jogar ?
TA - Nem passou isso pela minha cabeça. O que eu mais queria era voltar. Foram oito meses sem pegar na raquete.

TN - Mas antes dessa contusão, você já havia sentido alguma dor no local?
TA - Meu ombro sempre foi meu ponto fraco. Sempre tive dores nele, mas desta vez rompeu...

TN - E hoje como ele está ?
TA - Está bem. Sempre cuido. Trato ele com alguns exercícios específicos para fortalecimento de alguns músculos do ombro.

TN - Thiago, antes de sua contusão, você ocupava o 413º no ranking. Depois com um ano parado voltou em 1433º. No início de 2005, já estava em 338. Você disse que a contusão na verdade foi "boa" para sua carreira. Como é o Thiago Alves antes e depois da cirurgia ?
TA - Antes da cirurgia eu já vinha fazendo algumas coisas erradas, aconteceram muitas coisas complicadas comigo desde 2002. Até minha cirurgia eu estava “tomando na cabeça”, às vezes na vida profissional, às vezes na pessoal. A cirurgia foi o final do poço. Depois eu amadureci muito como ser humano, aprendi bastante. Muito pela dor. Hoje sou muito mais forte em todos os aspectos e isso tem refletido em vitórias na minha vida profissional e pessoal.

TN - E agora em 2005 você esta com seu melhor ranking (142º). Era a sua meta atingir tal posição ou foi muito além do que você esperava ?
TA - Não colocamos metas. Sabia que tinha potencial pra estar aqui e sei que tenho pra subir mais ainda.

TN - O que você almeja em sua carreira ? Quais são seus sonhos ?
TA - Eu quero trabalhar duro e chegar o máximo que posso. Espero entrar entre os 50 melhores, sei que vai ser difícil, mas estamos trabalhando para isso.

TN - Agora você se aproxima do top 100, já terá ranking para entrar em alguns eventos ATP e jogar entre os melhores do mundo, uma nova fase na carreira...
TA - Não to pensando nisso ainda, tenho muito que fazer para entrar entre os 100. Depois que estiver eu paro para pensar, agora tô pensando nesses torneios aqui.

TN - Como está seu calendário até o fim do ano ?
TA - Jogo todos os eventos da Copa Petrobrás (Montevidéu, Aracaju e Buenos Aires) mais o Challenger de Guayaquil (Equador).

TN - Você teve suas duas conquistas de Challenger no Equador. Uma em Manta e outra em Quito. Você tem algo com o país ou apenas coincidência ?
TA - Apenas coincidência (risos).

TN - O que sentiu ao vencer seu primeiro Challenger da carreira, evento de maior visibilidade, em Manta ?
TA - Foi legal. Estava preparado pra isso, mas toda primeira vez é sempre mais gostosa

TN - E essa conquista Quito ? Um torneio diferenciado por ser jogado na altitude (2,8 mil ao nível do mar) e vitória sobre o brasileiro Marcos Daniel na final ?
TA - Foi difícil lá, mas joguei bem, é um pouco complicado jogar com brasileiros, mas foi legal que tenhamos nos encontrado numa final.

TN - Qual foi seu título ou vitória marcante em sua carreira ? Pelo aspecto dificuldade, ou então uma semana que você esteve perfeito...
TA - Quando venci o russo Dmitry Tursunov em Campos do Jordão no ano de 2001. Ele tinha 5/3 no terceiro set e ganhei por 7/6.

TN - Falando sobre o tênis brasileiro, você apoiou a frente liderada por Guga da não participação do Brasil na Copa Davis em protesto a direção do Nastás no fim de 2003 e em 2004 ?
TA - Eu estava lesionado no momento, mas eu apoiaria.

TN - E o que você acha da direção atual ? Mudou alguma coisa ?
TA - Acho que ainda não mudou muita coisa não, mas acho que não mudou porque a CBT (Confederação Brasileira de Tênis) está no vermelho. Esses caras que entraram têm mais a ver com o tênis hoje. São pessoas que estão mais próximas dos jogadores, é legal porque os jogadores apoiaram essa gestão.

TN - O tênis brasileiro teve o fenômeno Guga, número um do mundo em 2000 e 2001. Agora sequer temos um entre os 100 melhores. Na sua opinião por que acontece isso ? O que falta ao tênis nacional para termos um nível semelhante ao espanhol, argentino, francês, escolas com vários talentos surgindo e ficando sempre entre os melhores ?
TA - Tem que ter apoio no trabalho de base. Acho que o tênis nacional deveria ter usado mais o Guga para ter popularizado o esporte. Sem dúvida aumentou o número de jogadores, mas acho que ele não foi tão bem aproveitado.

TN - Falando sobre o Guga, você acredita que ele pode voltar a jogar bem e voltar a ser um top 10 ?
TA - Não sei. Não convivo com ele, só treinava com ele várias vezes. Não sei o que ele esta passando, mas nível de jogo sem duvida ele tem.

TN - Como é seu convívio com outros jogadores do circuito ? Muitas amizades ?
TA - Tenho muitos amigos, mas meu melhor amigo é o Bruno Soares. Estamos juntos desde o juvenil, muitas viagens juntos.

TN - E nessa questão de viagens, qual foi o melhor lugar que você já visitou ou torneio mais organizado e qual foi o pior também ?
TA - Melhor lugar foi Nova Zelândia e o pior, alguns torneios no interior da Itália, tipo Sassuolo por falta de estrutura, mas em especial pois não tem nada que fazer, não gosto de cidades assim.

TN - Thiago, um jogador de tênis têm três fatores atuando para ele poder vencer: o físico, o técnico e o mental. Qual deles faz mais diferença num nível forte como o circuito profissional ?
TA - Todos são importantes. Acho que o tenista tem que estar em harmonia com os três. Se um está mal, vai ser aí que o adversário vai te ganhar.

TN - E você se considera melhor em quais desses aspectos ?
TA - Acho que hoje tenho mesclado bem os três, por isso tenho obtido essas vitórias.

TN - Como é seu estilo de jogo ? Quais são seus melhores golpes ?
TA - Direita é meu melhor golpe. Minha esquerda (de duas mãos) necessita de um pouco de melhora, mas hoje ela está bem melhor que antes.

TN - Os adversários em geral têm diferentes tipos de jogos devido à escola peculiar de cada país. Temos os espanhóis que jogam com mais top spin; os americanos, australianos e ingleses que jogam mais com o voleio; os jogadores do leste europeu que jogam mais plano, entre outros. Qual desses tipos de jogo que você tem mais dificuldade de se adaptar ?
TA - Pra mim é mais difícil o jogo da grama e nessas quadras de carpete e borracha, até mesmo porque tive pouca experiência nelas. São pisos muito rápidos, jogos muito velozes de saque e voleio.

TN - O que você acha do fenômeno Federer hoje em dia ? Ele é muito melhor que os outros ? Ou é demasiadamente respeitado ?
TA - Ele está acima da média. Está perfeito em todos aspectos e as pessoas estão respeitando demais esse momento dele.

TN - Qual o jogador mais apto a batê-lo no momento ?
TA - O Nadal sem dúvida. Mas acho que só no saibro e talvez na rápida. Na grama e em pisos indoor, não.

TN - Finalizando...O que representa o tênis para você hoje ?
TA - O tênis sem dúvida é o que direciona a minha vida nesse momento. Tudo que eu faço, ele está envolvido.

TN - Você se imaginaria sem tênis ?
TA - Hoje não. Ainda não parei para pensar no futuro quando parar de jogar. Mas acredito que vou fazer algo relacionado a ele.
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