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Kyrgios vs Murphy: quem teve razão na briga desta quarta?

Quinta, 15 de agosto 2019 às 15:20:24 AMT

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Tênis Profissional

Por Marden Diller – Em mais um episódio dos constantes altos e baixos de sua carreira, o australiano Nick Kyrgios envolveu-se em uma acalorada discussão com o árbitro de sua partida nesta quarta-feira (14). Mas no fim das contas, quem estava certo?



A briga começou quando o australiano sacava em 4/4 no segundo set. Incomodado já há algum tempo, Kyrgios finalmente explodiu para cima do árbitro de cadeira, o britânico Fergus Murphy, argumentando que ele estava chamando o placar cedo demais, atrapalhando sua rotina de saque.

Em verdade, Murphy estava apenas cumprindo com o determinado pela ATP, de que o cronômetro dos 25 segundos entre pontos deve ser iniciado no momento em que o placar é chamado. Por outro lado, se sobrou responsabilidade por parte do árbitro, faltou bom senso.

O debate se estendeu nos games seguintes e parei pra prestar atenção se o argumento do australiano realmente tinha embasamento. Apesar de a partida envolver dois tenistas bastante agressivos — Nick Kyrgios e Karen Khachanov — e ter tido poucas trocas de bolas extensas, a sensação térmica ao longo da semana em Cincinnati tem variado entre 26 e 29 graus, uma temperatura não muito agradável para a prática de esportes.

Mesmo a partida sendo realizada durante a noite, era visível como os tenistas transpiravam entre um ponto e outro, mesmo os pontos mais rápidos. Além disso, também foi comum ver o relógio chegar aos 20 ou 22 segundos com a plateia ainda aplaudindo o ponto anterior.

 

 

Desde que a regra do cronômetro foi implementada, na última temporada, muitos debates foram movidos a seu respeito, como a questão das longas trocas de bolas na temporada de saibro ou as partidas realizadas no calor escaldante da Austrália, onde os tenistas talvez precisem de um pouco mais que 25 segundos para se recuperar entre um ponto e outro.

Em razão disso, é muito comum vermos árbitros como Mohamed Lahyani, Damien Steiner e até mesmo o brasileiro Carlos Bernardes apenas chamarem o placar e iniciarem o cronômetro após o fim da manifestação da torcida, ou até mesmo quando o barulho promovido começa se dispersar. Por isso, nesse caso, eu julgo um pouco de falta de bom senso por parte do árbitro britânico.

No entanto, do outro lado da moeda está o descontrole emocional completo de Kyrgios. A briga tirou o tenista do centro de tal forma, que ele foi preza fácil para Khachanov, que venceu o segundo set no desempate. No intervalo para o set decisivo, Kyrgios gritou ofensas ao árbitro, dizendo que “esse é o pior árbitro de todos” e que em suas partidas selecionam apenas esse tipo de gente.

Advertido pelo comportamento, o australiano começaria o terceiro set com um ponto a menos, o que o tirou ainda mais do prumo e o fez sair de quadra com duas raquetes em mãos, destruindo completamente as duas no túnel de acesso à quadra central. Neste ponto, sobrou bom senso por parte de Murphy, que não puniu o australiano novamente, o que ocasionaria a perda de um game inteiro, para evitar uma confusão ainda maior.

 

 

Ainda que suas atitudes não sejam condizentes com o código de ética do esporte, o australiano teve um ponto exposto em suas reclamações que poderia ter sido defendido de forma diferente. Em diversos momentos, argumentou que esse tipo de pressa em iniciar o cronômetro não existe em partidas que envolvam Rafael Nadal, Novak Djokovic ou outros tenistas conhecidos por demorar a sacar, o que é uma grande verdade. Partidas envolvendo esses dois são onde mais vemos o placar ser chamado tarde. Inclusive, na partida entre Kyrgios e Nadal em Wimbledon, o australiano reclamou diversas vezes da demora do espanhol em se preparar para receber o saque, já que quem comanda o ritmo do game é o sacador.

 

 

Em tempo, apesar de seu temperamento duvidoso, Kyrgios não é de tudo uma má pessoa. Em diversos momentos, como durante o ATP 500 de Washington, pôde-se observar uma relação divertida do australiano com o público e um posicionamento amistoso com os árbitros. Sua flutuação de humor, no entanto, indica uma possível existência de problemas psicológicos, como ele mesmo relatou em uma entrevista recente.

Por fim, creio que a conclusão mais correta seja de que não houve um lado correto ou errado na briga desta quarta, apenas o lado mais errado, que foi o do australiano. Ainda que o árbitro estivesse falhando de alguma forma, nada justificava o comportamento do australiano. No entanto, é uma realidade constante no circuito de que precisa de haver a jurisprudência em certas regras, como a dos 25 segundos entre pontos, o que não houve por parte de Murphy. Uma coisa é certa, se tais conflitos não forem solucionados no futuro, quem perderá será o esporte.

O temperamento explosivo do australiano já o fez ser multado em muitas outras ocasiões, o que certamente enfraquece qualquer reivindicação que ele venha a fazer no futuro, ainda que as faça de forma civilizada. Confira as multas recebidas desde 2015 até hoje.

2019 Roma – US$ 20.000

2018 Queen's – US$ 17.500

2018 Australian Open – US$ 3.000

2017 Xangai – US$ 31.085

2017 US Open – US$ 5.500

2016 Xangai – US$ 16.500

2016 Wimbledon – US$ 8.690

2016 Roland Garros – US$ 6.200

2016 Australian Open – US$ 4.370

2015 Montreal – US$ 12.500

2015 Wimbledon – US$ 13.095

2015 Australian Open – US$ 4.926

Na manhã desta quinta-feira, Kyrgios foi multado, entre outras coisas, por cuspir no juiz durante a partida, em um valor de US$ 113 mil (R$ 440 mil). As multas foram de US$ 20 mil por conduta antidesportiva, US$ 3 mil por abandonar a quadra sem autorização, obscenidade audível mais US$ 5 mil. Duas por conduta antidesportiva, uma US$ 5 mil e outra de US$ 20 mil, abuso verbal mais US$ 20 mil e duas mais por conduta antidesportiva com mais US$ 20 mil cada.