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Blog – Marcos Baghdatis: o adeus ao cipriota sorridente que conquistou o tênis

Terça, 25 de junho 2019 às 18:39:39 AMT

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Tênis Profissional

Por Marden Diller – No meio do Mar Mediterrâneo existe um pequeno país chamado Chipre, desconhecido da grande maioria das pessoas. Em muitos aspectos, o Chipre não tem um grande impacto no resto do mundo, mas para o tênis sua importância deve ser ressaltada.



O momento em que a história deste país cruzou com o tênis data do dia de 17 de junho de 1985, quando nasceu, na cidade de Paramytha, Marcos Baghdatis, filho de um pai libanês e de uma mãe grega.

O jovem Marcos iniciou sua vida no tênis aos 5 anos de idade, incentivado por seu pai e seus irmãos. Aos 14 anos, foi para Paris através da Bolsa de Desenvolvimento Estudantil Olímpica e Solidária para treinar na Mouratoglou Academy, presidida pelo famoso treinador Patrick Mouratoglou.

 

 

Apenas quatro anos após se mudar para Paris, assumiu a liderança do ranking juvenil da ATP e fez sua estreia no circuito profissional. No ano seguinte, em 2004, fez sua primeira grande aparição no US Open, ao ser um dos dois únicos jogadores a vencer um set diante de Roger Federer — ao lado de Andre Agassi.

 

 

Baghdatis roubaria o coração do mundo do tênis apenas dois anos depois, em 2006, e logo no início da temporada. Portando um rabo de cavalo curto, roupas largas e um sorriso que parecia inabalável, o cipriota de 20 anos entrou voando baixo no Australian Open, conquistando uma vitória maiúscula contra Radek Stepanek, na segunda rodada, e surpreendendo o então vice-líder do ranking Andy Roddick nas oitavas de final.

Dono de um jogo agressivo, variado e uma forma física invejável que o permitia movimentar-se extremamente rápido pela quadra, o sorridente Baghdatis ainda travou duas grandes batalhas de cinco sets contra o croata Ivan Ljubicic, nas quartas, e contra o argentino David Nalbandian, na semifinal, e garantiu seu posto na decisão. Apesar do cansaço acumulado, venceu o primeiro set contra Roger Federer na decisão, em um ano que seria o melhor de toda a carreira do suíço.

 

 

Meses depois, em Wimbledon, voltou a surpreender derrotando o britânico Andy Murray, que já figurava entre os 50 melhores do mundo, nas oitavas de final e o australiano Lleyton Hewitt, campeão em 2002, nas quartas de final, parando apenas diante de Rafael Nadal na semi.

O ponto alto de seu ano veio apenas em agosto, durante o US Open. Ranqueado número 8 do mundo, seu melhor posto em toda a carreira, Baghdatis protagonizou uma partida épica contra o norte-americano Andre Agassi em seu torneio de despedida do circuito. Foram cinco sets batalhados, jogados no limite, até que ambos sofressem com cãibras em quadra e a vitória saísse para o americano.

 

 

Em sua autobiografia, Agassi relatou ainda no primeiro capítulo a partida e os momentos que a sucederam, sempre ressaltando o bom humor, bom caráter e a personalidade descontraída do cipriota. No vestiário, o norte-americano relatou ter sido posto em uma maca com o corpo totalmente travado em razão do esforço da partida; ao seu lado, o jovem Baghdatis de 20 anos sofria com cãibras em seus membros inferiores.

“Alguns instantes depois algo me faz olhar para Baghdatis de novo. Ele está sorrindo para mim. Nervoso ou feliz? Talvez as duas coisas. Sorrio para ele também. Ouço meu nome vindo do aparelho de TV. Viro a cabeça. Melhores momentos do jogo [...] Uma das melhores partidas da minha vida. Que joguei a que assisti. O comentarista define a partida como um clássico do esporte. Em minha visão periférica consigo perceber um discreto movimento. Viro para ver Baghdatis estendendo a mão. Seu rosto diz: Nós fizemos isso. Estendo minha mão e pego a dele; ficamos ali de mãos dadas, enquanto os noticiários reproduzem cenas de nossa selvagem batalha”, relatou o americano.

 

 

Após a campanha no Slam americano, o jornal New York Times classificou o cipriota como “talvez o mais perto que teremos de um novo Agassi”. Era claro, a raça em quadra, o humor, a personalidade agradável e o jogo agressivo dotado de variação impressionante, todas as grandes marcas do norte-americano. Infelizmente, assim como Agassi, as lesões também seriam presentes na carreira do jovem cipriota.

Pouco mais de um mês depois, Baghdatis derrotou outra grande promessa do circuito, o croata Mario Ancic, para conquistar seu primeiro título de nível ATP em Pequim. No ano seguinte, 2007, encaixou duas finais consecutivas já no início da temporada, conquistando o título em Zagreb e ficando com o vice em Marselha.

Apesar de manter-se em uma variação de ranking entre 10 e 20 do mundo, seu físico já começava a dar sinais de deixa-lo em problemas, com constantes cãibras e leves incômodos. O primeiro momento nebuloso de sua carreira viria em 2008, logo após Wimbledon, quando sofreu uma série de lesões que o obrigaram a abandonar diversas partidas e o derrubaram para a 96ª posição do ranking.

Com o mesmo sorriso de sempre no rosto, retornou às oitavas de final do Australian Open em 2009, parando apenas diante de Novak Djokovic. Ainda com dificuldades físicas, sofreu uma lesão no joelho direito em junho e ficou afastado das quadras por mais de um mês. Sem medo de se reinventar, retornou ao circuito Challenger na segunda metade do ano, onde conquistou três títulos consecutivos, além de ter levado o Chipre da terceira para a segunda divisão da Copa Davis sem perder uma partida sequer.   

Resiliente, fez as pazes com seu físico e conquistou o título em Sidney em 2010. Regular, ficou com o vice-campeonato em Washington, tornou-se o único jogador na temporada a derrotar Federer e Nadal em momentos onde lideraram o ranking e voltou a figurar dentre os 20 melhores tenistas do mundo.

 

 

Nas duas temporadas posteriores, conseguiu manter a regularidade embora não tivesse atingido mais aquele nível de tênis que o consagrou em 2006. Em 2013, as lesões voltaram a sombrear sua carreira e permitiram que disputasse apenas 37 partidas em toda a temporada, o que o derrubou de volta para fora do top 100.

Sempre estampando o mesmo bom humor, mas agora com um corte de cabelo diferenciado, Baghdatis retornou ao circuito Challenger em 2014 em busca de recuperar ritmo. Conquistou quatro títulos e preparou terreno para seu retorno ao top 50, que veio em 2015 após uma grande campanha na temporada de grama, com semifinal em Nottingham e terceira rodada em Wimbledon.

 

 

Em 2014, o tenista revelou ao site Tennis.com que se sentia longe de conseguir apresentar seu melhor tênis em alto nível, mas garantiu que “amo o esporte. Amo estar diante o público, se não fosse para isso não trabalharia tão duro”. O cipriota viveu seu último grande momento na carreira em 2016, quando voltou a figurar dentre os 40 melhores do mundo, sendo finalista no ATP 500 de Dubai.

Após sofrer uma lesão no cotovelo que o deixou fora das Olimpíadas do Rio, o cipriota viu as lesões no ombro, costas e joelhos que o perseguiram ao longo de sua carreira voltarem com tudo em 2017, sofrendo 7 derrotas nas primeira rodada dos 15 torneios ATP que disputou neste ano e sendo obrigado a desistir de 5 partidas.

 

 

O tenista chegou a figurar na final do ATP 250 de Chengdu, onde foi obrigado a desistir quando o placar ainda marcava 3/2 no primeiro set, mas os recorrentes problemas físicos e um novo e não especificado problema no sangue o impediram de manter um nível contínuo de tênis em 2018.

Em 2019, fora do top 100 e sem jogar desde maio, Baghdatis recebeu um convite para a chave principal do torneio de Wimbledon, na superfície que, em diversos momentos de sua carreira, serviu como trampolim moral, e anunciou que encerrará sua carreira na grama britânica.

O ex-número 8 do mundo tem hoje 34 anos, a mesma idade de Stan Wawrinka, que travou uma batalha de 5h contra Stefanos Tsitsipas em Roland Garros. Em sua passagem de 15 anos pelo circuito, mostrou que era possível sorrir diante de todas as adversidades — até mesmo em um acesso de raiva no qual destruiu quatro raquetes, em 2012.

 

 

Para o tênis, é a perda de um grande nome que floreou uma das melhores gerações de atletas que esse esporte já viu. Para os fãs que, assim como eu, tiveram o prazer de presenciar a genialidade deste tenista, fica a saudade do homem que fez frente à Roger Federer e Rafael Nadal em suas melhores fases.

Por parte de Marcos Baghdatis, fica o sorriso maroto depois de uma vitória, depois de uma derrota, retornando de uma lesão, ou simplesmente após uma jogada que levantou o público local.