X

Pai orgulhoso, fã de Federer e entusiasta da Davis. Mayer como você nunca viu

Terça, 26 de fevereiro 2019 às 20:25:28 AMT

Link Curto:

Tênis Profissional

Por Ariane Ferreira - Antes de estrear no Brasil Open, o argentino Leonardo Mayer conversou com exclusividade com o Tênis News para contar um pouco de sua trajetória no esporte e lembrar momentos importantes, como a quase vitória no ídolo Roger Federer.



Conhecido dos brasileiros como o 'hermano' que bateu João Souza, o Feijão, no jogo mais longo da história da Copa Davis, Mayer é um tenista denominado como "boa praça" pelos demais do circuito, fanático por futebol, seu filho Valentino de 2 anos, admirador do Brasil e um sonhador, quer conquistar mais um título profissional em nível ATP.

Alegre, Mayer não foge às perguntas delicadas, demonstrou apoio ao compatriota Marco Trungelliti e teve palavras de reprovação a punidos por corrupção. Confira o papo:

Tênis News: Leo, no site da ATP está escrito que você começou no tênis aos 9 anos e que tinha planos de ser goleiro caso não fosse tenista. Como o tênis aconteceu na sua vida?

Leonardo Mayer: Quando era criança eu joguei muitos esportes. Muitos mesmo. Dentre eles o futebol, tênis, padel – que eu jogava em casa. Aí, olha como é a vida, comecei a jogar tênis, fui gostando, me dando bem até que eu cheguei aqui. (risos)

TN: E este começo no tênis se deu como?

LM: Foi num clube, onde minha família ia jogar tênis antes disso. Aí comecei pequeno, fui para uma escola de tênis. Ali, comecei a melhorar muito e muito rápido o tênis foi um esporte que aprendi muito rápido, então segui praticando.

TN: Você é torcedor de que time na Argentina?
LM: Do Boca.
TN: Eres Boca Juniors como a Juan Martín del Potro…
LM: Sim, sim. Muitos dos jogadores somos torcedores do Boca. [Diego] Schwartzman é, [Federico] Delbonis é outro, tem o [Guido] Pella que também é. Somos muitos os torcedores do Boca.

TN: Cabe no dia a dia de um tenista o futebol do torcedor?

LM: Sim, sim. Quando estou aqui [Brasil] eu ligo a TV, coloco no jogo do Boca e me entretenho. Também faço outras coisas ligadas. Sou um torcedor que acompanha sim. A coisa de ir ao estádio [La Bombonera] na Argentina é mais difícil, porque não estou no país por muito tempo, mas eu acompanho sim. Vi muitas Libertadores.

TN: Assim como o futebol, representar a Argentina é muito importante para a maioria dos jogadores e você conquistou o maio feito, fez parte da campanha campeã da Copa Davis [em 2016]. Como foi isso pra você?
LM: Bom, foi lindo. A verdade é que eu joguei muitos anos na Copa Davis e sempre gostei muito de jogar por meu país. Tanto que todas as vezes que o fazia, fazia com toda a vontade.

A verdade é que tivemos muita sorte de poder ganhar a Davis como ganhamos, todos os confrontos de visitante. Isso foi incrível! É algo realmente difícil de se conquistar. Isto é algo que vai ficar na história da Argentina, a primeira vez que se ganhou uma Copa Davis, principalmente porque agora é tudo diferente. A Argentina merecia ganhar uma Copa Davis e é muito bom que isso tenha acontecido justamente quando eu era parte da equipe, tendo jogado muitos jogos e isso é positivo para mim.

* Foram duas vitórias em simples na primeira rodada contra Polônia, derrota nas duplas e vitória em simples contra a Grã-Bretanha na semi e derrota nas duplas na final contra a Croácia – as duas duplas ao lado de Del Potro.

TN: Ainda falando da Davis, você é protagonista do jogo mais longo de simples da história do torneio, naquela batalha contra o João Souza [o Feijão em 2015]. Quatro anos depois você consegue me explicar o que foi aquilo?

LM: Tomara a Deus que eu nunca mais jogue um jogo como aquele, porque nós dois terminamos aquele jogo muito mal. Passamos de todos os limites de um jogador de tênis. Não existe físico que aguente aquilo. Não há treinamento. Não existe nada.

Acredito que nós dois seguimos jogando porque jogávamos por um time e por como o jogo foi indo. Hoje posso te dizer que é difícil jogar algo tão longo e que eu jamais assistiria um jogo destes.

Bom, aconteceu, jogamos e ainda bem que eu pude vencer, porque era importante se eu perdesse a Argentina estava de fora.

TN: Como sua família reagiu depois do jogo? Eu teria ficado desesperada...

LM: Assim que acabou o jogo os encontrei no vestiário, assim como muitos argentinos, até porque ainda tinha o jogo do Fede [Delbonis] com o [Thomaz] Bellucci – eles jogaram o primeiro set e a coisa foi suspensa por falta de luz natural por culpa do tempo que João e eu jogamos.

Eles me viram no vestiário e sai dali direto para uma clínica fazer uns exames de sangue para saber como eu estava e eu estava muito mal por causa do cansaço, assim como João.

TN: Gastón Gaudio é o novo capitão argentino, as pessoas o veem como ‘El Loco’ que gritava e falava sozinho em quadra. Não sei se já conversaste com ele, mas como você vê essa escolha?

LM: Como eu não joguei a última Copa Davis, eu o vi pela televisão e o vi muito bem. Pelo que me disseram os caras, ele é muito atento em quadra e nos treinamentos.

Isso é bom. Ele é um jogador que sabe muito de tênis, já disputou muitas Copas Davis. Ele conhece o ambiente da Davis e sabe como tratar e motivar os jogadores. Acho que será muito bom. É preciso dar a ele seu tempo, para que conheça os jogadores porque ele é um pouco mais velho que a gente e não conhece todos.

TN: O que você achou da nova Copa Davis?

LM: Eu gostei, porque agora se joga em uma semana. O ruim é que não há mais a disputa de local e visitante. A torcida quando se está de visitante e o nervosismo de jogar com as pessoas te apoiando, onde muitos vão te ver.

Mas para nós os jogadores é bom, porque diminui o desgaste durante o ano. Eu mesmo sempre sofri com muitas lesões após cada confronto de Copa Davis, porque eu somava toda a minha energia e dava tudo na disputa e demandava tempo me recuperar.

TN: Ainda tem vontade de jogar?

LM: Sim. Tomara que ele me chame. Tenho muita vontade de jogar agora que mudou o formato. Mas a Argentina tem muitos bons jogadores e o capitão saberá escalar a melhor equipe.

TN: Você tem um filho?
LM: Sim. Meu Valentino…

TN: Com um filho as coisas mudam?

LM; Dentro de quadra não, quando se entra ali você quer competir e ganhar. Mas depois você fica mais tranquilo. Eu viajo muito com ele, o que é positivo. Desde que ele nasceu até agora [aos dois anos] pude acompanhar todas as suas etapas e isso importante.

TN: Isso é muito legal…

LM: É sim. É muito bonito que meu trabalho me permita fazer isso. Muitos viajam tanto, mesmo os sem filhos, que mal conseguem ver as pessoas da família e eu ter a oportunidade de viver o contrário é emocionante.

TN: Muita gente se lembra daquele jogo contra Federer em Xangai [2014, o suíço salvou três match-points]. Aquele jogo mudou sua trajetória?

LM: Não. Teria, se eu tivesse ganho. Porque aí mudaria meu histórico com Federer, eu teria vencido um jogo contra ele [Leo está 0x3 contra o suíço]. (risos)

O jogo foi muito bom, mas é daqueles que se a vida diz: ‘você tem que ganhar esse jogo’, ela me disse: ‘não, você não vai ganhar’. Foi incrível o match-point que tive e a bola bateu na fita da rede e não passou. No dia eu fiquei mal, mas no dia seguinte já estava bem. Afinal eu joguei com Federer, um ídolo.

TN: A vida de tenista é sobre esquecer rapidamente as coisas ruins?

LM: Sim. O mais rápido que se esquecer os problemas, é melhor em quadra. Este é um esporte é muito rápido, então se você se apega a uma coisa, o jogo já foi.

Cada jogo é um jogo e este é um esporte que uma semana pode mudar e estabilizar eu ranking.

TN: Que jogo mudou seu caminho ou te ajudou a acreditar mais?

LM: Foi um jogo em Acapulco, 2008. Você conhece Carlos Moyá?
TN: Sim.

LM: Então, eu o venci e dali* entrei entre os 100 melhores. Este foi o início do melhor de minha carreira.

Foi importante, porque ele era um cara que eu via pela televisão, usava ele para os joguinhos (videogame). Então foi algo muito grande pra mim.

* A vitória de Mayer sobre Carlos Moyá foi válida pelas oitavas de final em Acapulco, porém em 2009, com placar de 6/4 7/5. na ocasião o torneio era disputado no saibro.

TN: Mudando de assunto. Você acredita que o tênis argentino vai mudar e melhorar com a Associação sob comando de [Agustín] Calleri.

LM: Tomara que sim. A verdade é que faz bastante tempo que a Associação Argentina não está bem. Sempre tem um problema ou outro. Tomara Deus que Calleri e [Mariano] Zabaleta consigam trabalhar, que nosso esporte melhore, que eles apoiem as crianças, o que é muito difícil. Estes são os problemas que temos, por aqui na América do Sul em geral, todos os países. Tomara que se sane, porque a Argentina é uma máquina de fazer jogadores sem recursos. Nunca há recursos e sempre há um jogador bom. É importante que se tenha melhor controle da situação para dar a estes talentos as melhores opções.

TN: Como ficou o clima no tênis argentino, depois de três jogadores [Nicolas Kicker, Patricio Heras e Federico Coria] foram punidos por problemas de corrupção no tênis?

LM: O ambiente está bom. Este é um ambiente onde todos nos conhecemos há muito tempo. Quanto ao jogador que se complica, bom, ele prejudica a ele mesmo, como acontece a qualquer pessoa que faça algo ruim. Ela vai pagar.

As coisas são assim. Não podemos fazer nada. O ambiente segue como antes, há muitos jogadores e se você os vê junto por aqui, vai perceber que o clima é bom e saudável.

TN: Sabendo do que aconteceu, Marco Trungelliti acabou pagando com o próprio emocional por agir da maneira correta. Você acha que o circuito de modo geral pode vir a ser um ambiente hostil a gente como Marco?

LM: O que acontece é que na Argentina as vítimas são culpadas e os culpados são as vítimas, se fazem de vítimas. ‘Ah não, eu errei, mas vocês estão me julgando’, dizem.

Se você faz algo ruim, a culpa é sua. O certo é se se eu faço as coisas de modo ruim, eu pago. Se você faz, você paga.

O que ele fez é o que se tem que fazer. É o que a ATP te manda fazer. Eu faria o que Trungelliti fez e muitos outros fariam. É duro que ele se sinta mal por ter agido assim. Eu o apoio muito, o que ele fez é muito importante para o esporte do mundo, não apenas para a Argentina ou a ATP.

TN: Qual foi a sensação de fazer a semifinal do Australian Open com o João Sousa?

LM: Foi algo muito positivo, nós dois vinhamos jogando bem, de verdade, e não conseguíamos nenhuma semifinal, apenas ficávamos muito perto. Então foi uma sensação muito boa. Por isso vamos jogar.

TN: Vocês são amigos, vocês pretendem jogar mais juntos?
LM: Sim. Combinamos de jogar por todo o ano e assim vamos tentar fazer. Nossa ideia é ir melhorando o ranking, inclusive para que fique possível que joguemos torneios como os Masters 1000, que são muito difíceis de entrar e vamos seguir tentando e melhorando.